Don't be lazy
Crônica do saudosismo
Hoje em dia já não se faz mais isso. Ninguém fica mais do lado de fora de casa, sentados em cadeiras de praia, conversando com os vizinhos sobre o dia-a-dia, sobre família, novela, outros vizinhos... Tudo isso sob o céu do fim da tarde, sentindo a brisa. Nas tardes dos fins de semana, todos faziam um lanche com coca-cola, pão com manteiga e bolo, batendo papo, implicando um com o outro daquele jeito que só os mais íntimos fazem.
E no Natal? Ah, que saudade! Mães, avós e tias passando o dia inteiro cozinhando mais comida do que o necessário, as crianças ansiosas por seus presentes e os maridos lá, dormindo ou jogando buraco. No dia 25, todos passavam o dia curtindo seus presente e se sentindo ligeiramente culpados por terem comido tanto, mas plenamente conscientes de que fariam tudo de novo uma semana depois. Fazendo ligações para parentes distantes e amigos. Planejando a comilança do Ano Novo, planejando resoluções...
Durante o verão, as crianças enchiam as piscinas de plástico e ficavam se refrescando, brincando,correndo, pulando, gritando, rindo e fazendo bagunça. Brincavam de bola-de-gude ou pique-alto, pique - esconde, pique-bandeirinha, pique-fruta e muitos outros que inventaram. Comiam sacolés de fruta ou de chocolate. Ah, claro, jogávamos bola, brincávamos com os cachorros, regávamos as plantas, assistíamos novela e programa da Xuxa.
Carnaval então, era algo totalmente diferente do que é hoje. Quer dizer, ainda torciam por escolas de samba e assistiam o desfile na Sapucaí. Mas havia bate-bola! As crianças do século XXI nem sabem o que é isso! E havia bailes à fantasia no clube local, com meninos e meninas fantasiados de grega, palhaço, havaiana, caubói (ou cowboy?) e essas coisas. E cantando marchinhas! Ah, que delícia! Graças a Deus, essas nunca foram embora! Mas tem tanta gente nos blocos, que não se entende a letra e mal se escuta a melodia; não se pula, se empurra.
Bem,, não era nada perfeito. Na verdade, talvez tenhamos peneirado o tédio, as dificuldades financeiras, as broncas, a falta de acesso à informação, o autoritarismo, o conservadorismo sufocante e os pequenos problemas do dia-a-dia (que são atemporais). Em verdade, é bem provável, que as crianças de hoje, façam divagações semelhantes a esta daqui a 20,30 ou 40 anos. O passado vira uma lenda em nossas memórias e no coração, então esquecemos de apreender o presente em todas as suas pequenas perfeições e imperfeições. Quando vamos aprender que o passado não volta e que o presente está aqui para ser vivido?
